George R. Collins,
Christiane Grasseman Collins.*
Tradução: Frank
Svensson.
Um das peculiaridades do livro de
Camillo Sitte: City Planning according to
Artistic Principles como tratado de Planejamento Urbano é a maneira como
extrai princípios universais de
exemplos específicos apresentados por antigas cidades. Faz sentido perguntar:
de que pontos de vista generalizados, e em que premissas ele baseia suas
análises tornando seu livro um documento tão atemporal? Ele mesmo afirma no prefácio da edição de
1901 que a ideia básica deste livro é a de
educar considerando a Natureza e também os velhos mestres em matéria de
planejamento urbano.1
Ou seja, planejamento urbano é um
exercício artístico e como tal sua prática lucraria com a orientação dada desde
imemoráveis tempos a pintores e escultores.
Tal slogan, no entanto, foi entendido de distintas maneiras ao longo do
desenrolar artístico dos anos 1889-1901. Sitte deve ter percebido uma ligeira
diferença entre o início e o fim desse período. Certamente em 1901 um artista consideraria
algum pintor -- de Polygnotus a Delacroix -- como um reconhecido velho mestre; Natureza entendida não necessariamente como paisagem, por muitos
durante o período Art Nouveau como uma ideia de força interior ou uma propriedade
orgânica.
Por Natureza Sitte parece
referir-se a funções naturais da cidade: o meio ambiente do homem como ser
social artisticamente sensível. A questão não se resume a drenagem sanitária ou
a fluidez de circulação, mas como criar o algo
mais que permite à cidade ser psicológica e fisiologicamente adequada às
necessidades de sucessivas gerações de cidadãos usuários quanto a seus encontros
e reuniões; ao seu caminhar ao ar-livre para satisfação e fruição individual,
etc. Trata-se, admitamos, de uma imagem
de metrópole livre do sinistro caráter que se lhe atribuiu por toda parte no
século dezenove. Para Sitte o exemplo de cidades do passado é instrutivo não
por particulares estilos de arquitetura e configuração urbana. Ao escrever
sobre arquitetura eclesiástica em 1887 observou que o livre ecletismo moderno
tornara estilo algo sem sentido – menos
para ideias básicas sobre a arte de viver. A
contribuição de Sitte, assim como as de Riegl e Wotan em outras artes, foi
notável para sua redução do conceito de meio ambiente urbano a aspectos
essenciais presentes a qualquer estilo em qualquer época. Assim como esses dois
teóricos baseou sua análise no modo de percepção do moderno espectador bem como
do período em questão. Percebe-se após a
leitura de ensaio de Sitte em 1887 que, como artista, estava cansado de
arquitetura e pronto para planejamento urbano pelo fato deste lhe permitir uma
oportunidade única de falar em termos teóricos de arte ao invés de limitar-se a
detalhes de específicos estilos históricos. Urbanismo era uma arte de
ordenação. Reconhecer esse Homem Medieval, Barroco, ou Romântico é absurdo;
desde que os resultados podem variar em cada caso. O método de Sitte é
igualmente aplicável na Europa Central, na China, ou no altiplano do Peru. Nesse
aspecto ele sem dúvida foi moderno.
Sitte era fascinado por
perspectiva, especialmente como empregada no período Barroco, preferindo
pessoalmente panoramas de caráter pintoresco.
Seus contemporâneos chamavam isso de vistas
de efeito arquitetônico (geschlossense Architekturbild).2
Gosto semelhante ao do
Impressionismo tardio, uma semelhança bem ilustrada em conformações urbanas
propostas por seu contemporâneo Camille Pissarro (1831 – 1903). Pissarro
deliciava-se em usar perspectivas, mas frequentemente deslocando o eixo da
mesma da visão do observador (como nas séries da Pont Neuf em Paris); ele valorizava também a beleza das ruas curvas
(krumme Strassen) principalmente em
suas gravuras de Rouen em 1880. Uma paisagem urbana (Stadtbild) assim tratada sugeria mais o efeito da visão do
espectador do que de uma perspectiva de um projeto da configuração proposta (gridiron); Sitte menciona constantemente
o que o espectador poderia estar vendo. Tudo isso levava-o a uma interpretação
bastante pessoal da ideia de orientação na cidade, o que planejadores urbanos
evidentemente nunca compreenderam e nunca comentaram até então. Valeram-se do uso da palavra malerisch limitado ao sentido de pintoresco como certa dose de
precariedade medieval, classificando Sitte e seus seguidores de românticos. É certo que alguns desses incorreram
na mesma incompreensão de suas críticas, muito de estranho e romântico foi
perpetrado em nome de Sitte. Embora possa parecer inconsistente ao enfoque
bidimensional, um segundo posicionamento de Sitte, que provocaria uma profunda
revolução em matéria de urbanismo. foi insistir em que a cidade era uma obra de
arquitetura a ser concebida tridimensionalmente. Com a publicação de seu livro, nenhum planejador
urbano de respeito em terras germânicas se limitou a pesquisas planimétricas. Não tendo demonstrado que
velhas cidades cresceram por lentas etapas, possivelmente sem planos, mas sob
supervisão de profundo sentido espacial de sucessivas gerações de construtores?
Sitte simplesmente devolveu o planejamento urbano aos arquitetos. Sua imagem de cidade sendo um tanto pessoal,
não era compartilhada por seus contemporâneos. Via uma especial forma de
continuidade na feitura das cidades. Para Sitte, praças, simples ou em grupo,
deviam gerar unidade e contenimento, como expresso na conclusão de seu livro,
talvez por sobreposição de seus
muros. Não deveria haver elementos independentes como igrejas ou monumentos centrais e autônomos, o mobiliário
urbano tinha que ser parte inclusa do todo maior onde estivesse. Arcos e
colunatas em torno de espaços abertos permitiriam -- como aconselharam
Vitruvius e Alberti – interação com os espaços fechados. A despeito disso se
referir às paredes das praças e das
ruas, não era a arquitetura dos componentes construtivos, mas o espaço gerado
pelos mesmos que o interessava. Para Sitte, o caráter de uma cidade ou
metrópole residia na sua capacidade de gerar espaços públicos para seus
cidadãos, e a beleza dos mesmos era fruto da rítmica de suas interpelações.
Para praças preferia definitivamente o encadeamento de distintas formas
integradas entre si. Sua eloquente descrição de Veneza no Capítulo VI o
demonstra. Algo que de fato se tornou ideia arquitetônica amplamente aceita; em
1950 Walter Gropius explicava a seus alunos em Harvard que: O encanto de Sitte por Veneza atesta o
caráter teórico de seu método analítico:3 ele conseguia tratar vias aquíferas como equivalentes
a ruas pavimentadas e quarteirões.4
Sitte não discute o caráter espacial
das ruas em detalhe (o capítulo que trata disso na edição Francesa não é de sua
autoria) exceto para quando espaço de ruas vizinhas saem de uma mesma praça.
Praças ajardinadas e parques, diferente de quarteirões, devem ser localizados a
certa distancia uns dos outros, separados pela interveniente massa de
edifícios, tendo os pátios internos dos edifícios também separados uns dos
outros. Para Sitte, Desenho Urbano consistiria no
ordenamento de espaços atrativos e sequenciais mais do que a divisão de um
sítio para blocos de edifícios separados por artérias de transito, como numa
malha. Stubben discordava dele desde o princípio, mas seus admiradores achavam
que Sitte propunha tornar arte cívica uma verdadeira arte espacial (Raumkunst).5
É notório, além disso, que Sitte
atribuía a si mesmo outro aspecto intangível do cenário urbano – a ramificação.6 Sobre essa sua
ideia, no que podemos entender, diferente de tudo o usual em seus dias, independente
de propósitos higienistas ou decorativos, considerava a ramificação
das árvores e arbustos algo de gosto judicioso, não de consistência geométrica.
A árvore adulta e grande, cuja
influencia civilizatória ele idealizava, devia ser localizada, à guisa de um
monumento, no eixo ou no vértice de um espaço. Árvores e ou arbustos em
quantidade deviam ser dispostas em moitas ou ilhas segundo ritmos instintivos
ao invés de filas geométricas sem sentido. Para Sitte esses elementos
constituem aparatos arquitetônicos da cidade, devendo, portanto ser concebidos em
harmonia com edifícios, monumentos e fachadas ao invés de competir com aqueles
obscurecendo-os. Especulava portanto as formas que plantas melhor podiam
induzir recreação e contemplação aos usuários da cidade moderna: em parques,
quadras, bem protegidas do transito de veículos e também nos pátios internos
dos edifícios. Na realidade essas ideias exerceram pouca influencia na
Alemanha, pelo fato de periódico para o qual escreveu era obscuro e seus
ensaios raramente foram percebidos antes de seus filhos publicá-los como
apêndice de seu livro na edição de 1909. A versão francesa incluiu alguns
fragmentos a esse respeito já em 1902; até hoje os leitores ingleses nunca
tivera acesso a seu formato original.7
Desse modo arquitetura e
natureza, bem como cheios e vazios eram para Sitte os elementos com os quais
fazer a cidade a totalidade que sempre almejou como uma síntese popularde todas as artes. Tão teórico ponto de vista
prepara-nos para suas frequentes comparações da cidade com outros tipos de
composição artística: seu emprego de analogias musicais, sua comparação de
paisagens urbanas com encenações teatrais, e seus argumentos em favor de uma
cidade perfeita em ordenada exibição. Seus biógrafos enfatizam que um tema
favorito era a relação entre arquitetura e música.
Está claro que a contribuição
teórica de Sitte à nova ciência de planejamento urbano da Alemanha é um
conjunto de princípios bastante subjetivos. Aparentemente não lhe era
confortável quando no eixo ou no centro, e sabia que muitos jogavam
lixo em amplas quadras vazias. Uma cuidadosa e minuciosa observação da forma de
cidades antigas sugeriram-no que tais fobias não o visavam pessoalmente mas
eram muito mais universais, e que antigos mestres faziam tais considerações
visando o desenvolvimento de suas cidades. Sua descrição de passeios carentes de proteção
faz lembrar cenas contemporâneas de ruas em quadros do pintor Edvard Munch.
Compreendemos porque para alguém com tal sensibilidade freudiana quanto a assuntos de equilíbrio, superfícies como se
fossem tabuleiros de xadrez não eram desprezíveis, mas simplesmente banais e
sem sentido, por serem neutras
configurações sem nenhum conteúdo humano.
Para Sitte era óbvio que o desenvolvimento da cidade moderna não podia ser de
interesse exclusivo de técnicos, de repartições municipais, de manuais ou de concursos,
mas uma atividade eminentemente criativa.
A necessidade de exercício artístico
em planejamento urbano era óbvia em 1889, e os arquitetos muitas vezes já
haviam aderido animadamente a tanto. Ao
defender a partici-pação de artistas em questões da conformação urbana de
antigas cidades, por haver identificado a participação desses nos traçados
irregulares das mesmas, Sitte gerou um argumento mal resolvido até hoje.
Rinckmann e muitos outros consideravam-no irremediavelmente romântico quanto a
isso. Sitte fazia alusões a arte infantil
e a arte primitiva em seus discursos sobre princípios de urbanismo. Descobrir
e verbalizar as propriedades artísticas das coisas antes considerado ser
sub-artístico ou acidental e postular haver entre os mesmos profundas ligações,
era subverter os herdados dogmas e modelos do século XIX. Fazê-lo foi típico
dos anos em que Site escreveu: inevitavelmente pensamos em seu contemporâneo
Alois Riegl e no conceito de
will-to-form (Kunstwollen). A atmosfera de Viena nesses dias, tanto para
teorizações de Psicologia como de
História da Arte deve ter sido intensa;
Desnecessário é enumerar aqui os
papeis sugeridos por Sitte para que seus propósitos fossem alcançados. Basta
verificar os títulos dos seus capítulos ou consultando as passagens em que
Sitte recapitula seus próprios argumentos.8
Deve-se, no entanto, enfatizar
que seu livro é constituído de duas partes. A primeira parte é de análise. Nela
ele examina admiravelmente a estrutura da cidade pré-industrial da Europa
Ocidental. O interessante com
esses capítulos é bastante, mas não totalmente medieval, desde que as cidades
por ele escolhidas eram antigos assentamentos que ganharam formas medievais.
Muitos de seus quarteirões, mesmo incluindo a sua favorita junto à S. Marco em
Veneza, tiveram boa porção construída tão tarde como no século XIX. Na segunda
parte do livro, que é de sínteses, ele critica muitos procedimentos do
urbanismo moderno e sugere como, em sua opinião, os inevitáveis sistemas
mecânicos dos tempos modernos podem ser melhorados. Suas curas são baseadas
justamente nessas medidas com as quais seus contemporâneos são obcecados –
estudos de uso do solo, limites de elevação, fluxos de transito, densidade de
área construída, etc. exceto serem consideradas por ele por sua potencialidade
estética. As medidas por ele sugeridas
advinham daquilo que o período Barroco apresentou como forma urbana ou
derivativos Semperianos do Barroco, pois só esse período apresentou formas de
suficiente poder de suportar a escala de modernas metrópoles. As tendências
altamente irregulares do período medieval que descrevera ná primeira parte de
seu livro raramente considerou ou de muito simplificadamente – como em torno da
neogótica Votive Church.
Sitte sofria com o fato de muitos
de seus discípulos, e também de seus críticos não entenderem sua mensagem. Por
exemplo embora advertir contra simplesmente copiar cidades antigas,
especialmente suas irregularidades, seus seguidores, especialmente Henrici e
Gurlitt incorrendo em tais hábitos, o
culparam disso. As incompreensões em relação
a Sitte foram muitas, e podem ser melhor estudadas observando edições e resumos
posteriores a seu livro – especialmente
as edições em Frances e os resumos em Inglês.
N o t a s :
* Ver: George R. Collins and Christiane Garesseman Collins: Camilllo Sitte - The bird of Modern City Planning - Rizzolli International Publications, New Yoek, 1996. Capítulo 6 pp. 64-70
1 - Die Alten. Essa
palavra era uma das expressões favoritas de Sitte. Nós a traduzimos de várias
formas: nossos antigos, nossos predecessores, os velhos, os velhos mestres etc.
2 - F. Hoeber, in StBK, 1, 1920,
p. 233. Isso nem sempre
era usado como elogio. Na visão de Brinckmann o planejamento de Sitte
limitava-se a ordenação pictórica. Seu
gosto por cenários arquitetônicos lembrando pinturas impressionistas lembra
ilustrações de guias de viagem. Compare-se uma pintura de Pissarro com a vista
de uma rua Florentina projetada bem depois por Bauerfeind. Na precariedade de
teorias baseadas em qualidades visuais do ordenamento territorial antes de
Sitte, ver S. Lang, The Ideal City from Plato
do Howard in ARev, CXII, Aug. 1952, pp. 76,90-101.
3 - Walter Gropius, Tradition
and the Center, Harvard Alumni Bulletin, LIII, 1950, pp. 68-71.
4 – É necessário observar que a tradição de Paisagem Urbana –
Stadtbilder – para a qual Sitte tanto
contribuiu deu-se, em parte, entre pintores -- Canaletto e Guardi – e porque os
impressionistas tardios compartilhavam o entusiasmo de Sitte por Veneza. Provavelmente deve-se à descrição estética de
Sitte, que a Piazza San Marco tenha merecido tamanha atenção em subsequentes
livros de planejamento urbano. Para uma inteira historia de Paisagem Urbana
(Stadtbilder) realçando os pintores do padrão de vida veneziano, ver de J. G.
Link: Townscape Painting and Drawing,
New York, Harper & Row, 1972.
5 - Schumacher considerava a ênfase na rítmica das relações
espaciais dos usuais blocos construídos como uma contribuição básica de seu
livro. Ver também as observações de Goecke a respeito.
6 – Quanto a isso já existe um considerável bibliografia e
muito mais como sabemos do apêndice I do livro de Sitte. Os britânicos foram
indiscutivelmente os pioneiros nessa matéria, liderados por Sir Edwin Chadwick
(1800-90). Assumiram um ponto de vista moral em questão de planejamento urbano.
Horsfall em seu relatório é obcecado pela ideia de que se deve ao seu meio
ambiente ser mais saudável, o fato dos Alemães beberem e jogarem menos que os
Britânicos. Basta considerar o longo trecho sobre plantas do manual de Stubben
a respeito e constatar como Sitte em sua análise recupero o mesmo assunto.
7 – Para ver como essas ideias de Sitte surtiram efeito na
Alemanha em torno de 1910, basta consultar: Hugo Koch, Neue Gardenkunst, StB, IX, 1912, pp. 25-31. A republicação do
artigo de Sitte em 1901 foi providencial. Tal artigo foi omitido na edição
Norte-americana desse livro em 1945.
Die Alten - poderá corresponder ao "the Elders". Creio que o sentido é o mesmo, onde "elder" traz também o sentido de ente autorizado, mais velho, etc. Obrigado, excelente texto. David Pennington
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